Fim

•4 de julho de 2010 • 9 Comentários

“E em sabendo do perigo me apresto,

que em tal tarefa não basta livrar-se

o corpo – ou chorá-lo – ao seqüestro

A mim pareces-me um pássaro perdido.”*

Eram uma sequóia e um pássaro. Altiva e equilibrada, ela era sempre convicta de suas ideias e ideologias. A moça-sequóia, muito bem alicerçada e firme, não invejava a liberdade alheia: possuía uma liberdade peculiar: suas folhas e galhos dispunham de faculdade plena de movimentarem-se apenas de acordo com os caprichos da natureza, à deriva.

O rapaz-pássaro pairava no céu nublado, sob sua romântica condição de desprendido, solto. Era todo incerteza, mistério, voava só e assim o estimava; às vezes acompanhava a revoada, mas em geral consigo mesmo, e não raro tomava a nebulosidade do firmamento para dentro de si.

Um dia os ventos e sua causalidade fizeram com que eles se cruzassem:

_ Posso sentar do seu lado? – ela perguntou. Não ouviu a resposta – o solo insistente de um blues alto e a conversa frenética dos convivas do lugar pequeno e abafado na noite idem impediam-na de fazê-lo – mas sentou-se mesmo assim, imaginando um disposto “Mas é claro!”. Dividiram um cinzeiro improvisado e um assunto bobo, perfeito para primeiras vistas, então passaram a se encontrar mais vezes.

Ele era diferente de todas as pessoas com quem ela havia se relacionado anteriormente, e adorava isso. Achava muito divertido estar com alguém tão matizado e que lhe era ao mesmo tempo tão compatível. Cabe enriquecer com a observação da raridade desse tipo de ocasião: a moça era, por essência, perfeitamente descritível como alguém “independente emocionalmente e feliz com sua condição de solta”.

E assim mesmo o ar soprado os fez juntos cada vez mais e mais vezes, sob verdejantes veigas e bons terrenos – bares, eventos, reuniões, onde estavam sempre cercados de outras pessoas igualmente interessantes e agradáveis. E isso sucedeu por quase uma revolução do Planeta em volta do Sol, significativa a cada grau.

E foi-se indo o tempo, as estações, e uma nova temporada encetou-se. A moça-árvore, decídua, também tinha lá seus tempos de dificuldade; encontrava-se numa situação frágil feito linha de costura barata, com atribuições que exigiam uma responsabilidade, sabedoria e maturidade que ela descobrira não possuir suficientemente. O rapaz-passeriforme tinha lá sua vida, mas desejou ficar ao lado dela, mesmo nas adversidades.

Ele então assim o fez, acreditando no sentimento bom que possuía, mas não percebera que o mesmo era insuficiente, ainda que talvez não chegasse à mediocridade, para transpor certos embaraços.

Ocorre com muitas pessoas fatigarem-se de outras – não há normalidade maior: enjoamos da posição daquele quadro, do odor do amaciante de roupas e até do mais aprazível amigo, bem como de um beijo, de um toque, da textura de uma voz. Daí junta-se uma peça à outra última de um quebra-cabeças cuja hora de desfazer é chegada.

Todavia o desvanecimento não necessariamente faz com que a essência, o que há de mais sutil e puro nas coisas, perca-se. Pelo contrário: as boas lembranças permanecem incólumes – sãs e salvas.

Deu-se que o pássaro, então, foi-se afastando e ficando cada vez mais longe da jovem sequóia caduca, até quando resolveu-se por voar para o último horizonte, “num domingo qualquer, qualquer hora; ventania em qualquer direção”.

_ Não há mais nada que eu possa fazer, só dizer que sinto muito.

E alçou vôo, contando com o fortuito. Não tão fundo, ela já esperava.

Ora, tudo acaba: uma xícara de café expresso num final de tarde chuvoso, um banho de banheira, o último incenso de cravo da caixinha. E eis que esse fim “apoptósico” do casal rendeu à moça um banho frio e um prejuízo de dois maços de cigarros consumidos. Poderia ter sido mais, uma garrafa de qualquer coisa alcoólica, talvez, mas ela estava demasiado ocupada fazendo renascer suas folhas para a estação seguinte. Nada muito além de uma efêmera lamentação e uma lembrança grata do que lhe passou a ser ausente…

Quem sabe pudesse ter rendido um conto melhor… Quem sabe?

“A fonte se converteu nisso: simples

afeto, ponto de partida, ponto de

retorno, outra fronteira para


 

outro recíproco amor. Ainda que

ao despojar-me deste encanto seja

meu pranto o sol posto além deste reino.”*

 

*Ebe Guarino

Fibra, tijolo, nervos…

•1 de novembro de 2009 • 4 Comentários

“Vou ficar melhorando página em branco”, não sabia o que era mais alvo: a folha de papel, a parede que mirava sempre que levantava a cabeça dessa primeira, ou a sua própria cabeça.
Círculos.
Ficou desenhando círculos infinitos no papel, na parede ou na cabeça – não sabia qual dos três era mais compatível com os anéis de grafite ou de idéia. A propósito, o que estava escrevendo mesmo¿ Nunca vi escrever na penumbra, quase escuridão absoluta – de papel, de muro, de devaneios. Nunca vi reconhecer alvura no negrume da ausência de luz – ah, sim, não a reconhecia: o hábito de tudo ali naquela casa, de toda mobília e toda construção, podia fazê-lo divagar sobre as cores – ou a omissão delas.
O azulejo do chão também era branco. Aliás, costumava ser porque de uns anos pra cá tinham adquirido uma cor meio bege, meio cinza, nem saberia definir de fato – era o que pensava; só pensava porque nem sabia quantos inquilinos haviam passado por aquela mini casa, toda pequena, com um quarto, uma saleta e um banheiro. Quem teria sido o último habitante daquele lugarzinho até agradável, que cheirava café e gente solitária¿ Não sabia, mas sentia que tinha sido ele desde sempre, e sempre era então – uma noite atrás. Quem será que… duas noites dessas atrás.
Batem a porta.
_ Com licença, señor… – uma voz adocicada e latina faz cócegas em seu ouvido. Ah, como ele adorava aquele sotaque. Fazia-o lembrar de uma moça que…
_ Pois não¿
Até que eram parecidas. Os olhos, talvez, assim meio baixos, de amêndoas frescas, levemente adulados para cima da linha das orelhas. A pele, talvez, a extensão de sua pele, que lhe cobria os braços longos e pernas idem, morena que brilhava. A voz, talvez, daquele jeito: macia, adocicada…
_ Queria dar-lhe a chave da porta dos fundos, uma pequena. Dá num matagal cheio de grilos cantores, melodía hermosa…
A moça olhava para o interior da casa, espreitando a tentar enxergar a portinha sobre a qual falava. Era a ex-moradora da casinha. Sua simpatia também muito se assemelhava à outra; essa mania de falar com um desconhecido como se fosse amigo de longa data, compartilhar reminiscências, trazia uma atmosfera agradabilíssima a qualquer minuto de um encontro, casual que fosse, e começasse com um “Bom dia” – que acabaria em um café forte com cheiro de canela – ou com um “Boa noite” – que acabaria em um vinho ou chá ameno…
(No caso, quando as conversas eram em sua casa, o vinho, por sua vez, resultava em peças de roupas pelo chão, no caminho da cadeira grande da sala depois da varanda, até a cama, no quarto, entre cálidos lençóis humanos.)
_ Sim, senhorita, obrigada. Os grilos fazem uma zoada que me inspiram a escrever; estou a sentir falta deles agora… – sorriu simpaticamente, olhando nos olhos da moça.
_ Escreves¿ A propósito, como te chamas¿ Penso que devo saber pelo menos o nome do “herdeiro” da minha casinha – não que ela me pertença de fato, mas se um dia eu morei aqui, um dia pertenceu. Agora é tua. Como te chamas¿
Que delícia sua fala ligeira, sua mão contida, querendo gesticular, mas meio tímida ainda, se é que era possível. Em que acabaria um “Pois não¿”¿
_ Só se eu puder te oferecer uma cerveja…
_ Só se eu puder aceitar tua cerveja… – e sorriu olhando para o chão e depois para a portinha que dava nos grilos noturnos cantores…
Convidou-a para entrar.
André. Inés.
_Vamos ver o que tem nessa mata dos fundos…
André abriu a porta: um sofá de palha grande, coberto com um tecido grosso, esverdeado, combinando com as árvores justapostas a frente. Vento fresco, cerveja, companhia agradável…
_ Sente-se, joven.
E sentou e beberam e conversaram e a cerveja resultou no mesmo que o vinho. Inés e seu adorável vestido salmon de alça e seus seios duros; era a pura volúpia. Daí fez-se noite.
“Ouvi baterem à porta, talvez¿”, pensou o rapaz. Retirou os olhos na folha de papel, ou da parede, ou de sua cabeça. E eram só círculos, não sabia o qual dos três era mais salmon.
À porta, ninguém. Pelo menos tinha uma história – mas continuava com uma página nua e cervejas na geladeira.

Naretha

•13 de outubro de 2009 • 1 Comentário

Nasceu em dia de chuva.
Foi criança esquecida.
Fez-me moça, teve todos os rapazes que queria – voluptuosa e astuta
Era adulta, mulher da vida.
Quando senhora sucumbiu-lhe o fôlego.
Morreu no vigésimo terceiro aniversário natalício
para, então, nascer de novo.

•23 de agosto de 2009 • 1 Comentário

“Mulher cáuculo, mulher-aritmética, mulher sem sentimento, mulher sem amor, mulher-egoísmo, é um triunfo da matéria sobre o espírito, mais terra do que céu, mais pó do que alma, mais lodo que pureza da eternidade; é a mulher monstro que calunia a mulher criada por Deus: é um assombro que faz-se admirar pela hediondez”

Joaquim Manoel de Macedo

•21 de junho de 2009 • 1 Comentário

Correndo.

Os pingos de chuva batiam seu corpo e feriam como estilhaços de vidro. Nada mais importava. Não sabia para onde iria, de onde saira. Não se reconhecia, só sentia aqueles pedacinhos de vidro cortando toda extensão da superfície do seu corpo. Sangrando pelos poros por algo que nunca quis. Esqueça. Não importa.

Corria pela cidade barulhenta e acizentada.
Parou. Bar.

Entrou e pediu:
_ Uma dose do que de mais forte você tiver.

Talvez tenha ouvido o barman dizer algo, o que era muito provavelmente descartável, visto que não conseguiu entender uma palavra sequer. Olhou um pouco para aquele rapaz.

Era um rapaz! Pobre rapaz. Servindo pessoas que ele nunca soube nem saberá quem são. Quem são? Quem era aquela moça que pediu com uma voz tão adocicada e triste algo forte?

Serviu um destilado para a moça e ficou olhando.

Deborah tomou aquilo e sentiu arder, como quando o álcool dança frenticamente em cima de feridas abertas. “You must know what I’m telling about”.

Colocou o copo no balcão, sentou-se numa cadeira alta. Olhou o cara que havia servido-a. Ninguém muito interessante… Cabelo legal. Ele deve ter fogo.
_Tem fogo?
E retirou da bolsa de plástico um maço de qualquer coisa. Vazio.

O rapaz alcançou um isqueiro e um maço novo de Lucky Strike.
_Esse é por conta da casa.

Gostou. Mas não importava muito.
_Obrigada.- lembrou-se de agradecer.

Toda sorte de pensamentos flutuavam em sua cabeça. Deborah era alguém a quem você daria título de louca. Loura, cabelos até a cintura, corpo esguio e rosado. Sem pessoas, elas não merecem credibilidade alguma. A mocinha queria ter vindo ao mundo como um ser de espécie diferente. Ou simplesmente não ter vindo.
Vermelho e preto, perdida entre os lençóis de um e outro e dela mesma. De quem?
Entregue a carnalidades, de lábios carnudos e quentes. Mas ela mesma era fria, assim: nuvem carregada. Nuvem livre e pesada. Parecia nuvem.

Mais uma dose daquela coisa.
_ Acende pra mim?

Simpático o rapaz.

Não gostou daquela moça, mas acendeu o cigarro.
Estava mudando de apartamento, e ia se livrar daquele carpete verde musgo que cheirava vômito, esperma e cerveja. Alan saía do bar às 9, troca de funcionários. Eram oito e cinquenta e seis. O tic-tac do relógio não o deixava esquecer. Saiu de trás do balcão com a finalidade de colocar uma música. Qualquer coisa.

_Saio às nove.

Bem direto, hm. Mas Deborah não pretendia nada daquilo hoje. Ainda suas feridas gritavam, abafadas pelo som do lugar. Negro e frio, identificação súbita: a noite era a prometida, a escuridão e os becos eram as damas sujas.
_Acompanho você.

Nove horas. Ele extraiu o avental, pegou dois capacetes, chaves e uma jaqueta de couro meio surrada. Foi retirando-se pela porta da frente.
Deborah terminou um cigarro e foi atrás.

“On the other morning
I checked your smile
Looking at the portrait
I felt my heart was gonna melt down
In you
And you really did it, girl”. Deixaram o bar, que tocava arcano nebuloso.

•21 de março de 2009 • 3 Comentários

… and so Christian caught that old steely knife and killed Sophia.

•27 de fevereiro de 2009 • 4 Comentários

Entardecem, por que, meus pensamentos, se é a aurora lá fora? E ainda insistem…

Entardeciam em minha cabeça postumidades de um futuro recente… e no velório dessas minhas memórias, peço que sirvam o barato vinho morno e os velhos cigarros que fizeram esquecer na cabeceira.