Fibra, tijolo, nervos…
“Vou ficar melhorando página em branco”, não sabia o que era mais alvo: a folha de papel, a parede que mirava sempre que levantava a cabeça dessa primeira, ou a sua própria cabeça.
Círculos.
Ficou desenhando círculos infinitos no papel, na parede ou na cabeça – não sabia qual dos três era mais compatível com os anéis de grafite ou de idéia. A propósito, o que estava escrevendo mesmo¿ Nunca vi escrever na penumbra, quase escuridão absoluta – de papel, de muro, de devaneios. Nunca vi reconhecer alvura no negrume da ausência de luz – ah, sim, não a reconhecia: o hábito de tudo ali naquela casa, de toda mobília e toda construção, podia fazê-lo divagar sobre as cores – ou a omissão delas.
O azulejo do chão também era branco. Aliás, costumava ser porque de uns anos pra cá tinham adquirido uma cor meio bege, meio cinza, nem saberia definir de fato – era o que pensava; só pensava porque nem sabia quantos inquilinos haviam passado por aquela mini casa, toda pequena, com um quarto, uma saleta e um banheiro. Quem teria sido o último habitante daquele lugarzinho até agradável, que cheirava café e gente solitária¿ Não sabia, mas sentia que tinha sido ele desde sempre, e sempre era então – uma noite atrás. Quem será que… duas noites dessas atrás.
Batem a porta.
_ Com licença, señor… – uma voz adocicada e latina faz cócegas em seu ouvido. Ah, como ele adorava aquele sotaque. Fazia-o lembrar de uma moça que…
_ Pois não¿
Até que eram parecidas. Os olhos, talvez, assim meio baixos, de amêndoas frescas, levemente adulados para cima da linha das orelhas. A pele, talvez, a extensão de sua pele, que lhe cobria os braços longos e pernas idem, morena que brilhava. A voz, talvez, daquele jeito: macia, adocicada…
_ Queria dar-lhe a chave da porta dos fundos, uma pequena. Dá num matagal cheio de grilos cantores, melodía hermosa…
A moça olhava para o interior da casa, espreitando a tentar enxergar a portinha sobre a qual falava. Era a ex-moradora da casinha. Sua simpatia também muito se assemelhava à outra; essa mania de falar com um desconhecido como se fosse amigo de longa data, compartilhar reminiscências, trazia uma atmosfera agradabilíssima a qualquer minuto de um encontro, casual que fosse, e começasse com um “Bom dia” – que acabaria em um café forte com cheiro de canela – ou com um “Boa noite” – que acabaria em um vinho ou chá ameno…
(No caso, quando as conversas eram em sua casa, o vinho, por sua vez, resultava em peças de roupas pelo chão, no caminho da cadeira grande da sala depois da varanda, até a cama, no quarto, entre cálidos lençóis humanos.)
_ Sim, senhorita, obrigada. Os grilos fazem uma zoada que me inspiram a escrever; estou a sentir falta deles agora… – sorriu simpaticamente, olhando nos olhos da moça.
_ Escreves¿ A propósito, como te chamas¿ Penso que devo saber pelo menos o nome do “herdeiro” da minha casinha – não que ela me pertença de fato, mas se um dia eu morei aqui, um dia pertenceu. Agora é tua. Como te chamas¿
Que delícia sua fala ligeira, sua mão contida, querendo gesticular, mas meio tímida ainda, se é que era possível. Em que acabaria um “Pois não¿”¿
_ Só se eu puder te oferecer uma cerveja…
_ Só se eu puder aceitar tua cerveja… – e sorriu olhando para o chão e depois para a portinha que dava nos grilos noturnos cantores…
Convidou-a para entrar.
André. Inés.
_Vamos ver o que tem nessa mata dos fundos…
André abriu a porta: um sofá de palha grande, coberto com um tecido grosso, esverdeado, combinando com as árvores justapostas a frente. Vento fresco, cerveja, companhia agradável…
_ Sente-se, joven.
E sentou e beberam e conversaram e a cerveja resultou no mesmo que o vinho. Inés e seu adorável vestido salmon de alça e seus seios duros; era a pura volúpia. Daí fez-se noite.
“Ouvi baterem à porta, talvez¿”, pensou o rapaz. Retirou os olhos na folha de papel, ou da parede, ou de sua cabeça. E eram só círculos, não sabia o qual dos três era mais salmon.
À porta, ninguém. Pelo menos tinha uma história – mas continuava com uma página nua e cervejas na geladeira.

Adorei essa sua história.
Acho que tenho uma queda por histórias que sentimos ser reais e no final é apenas nossa mente, brincando.
Ave! Você escreve muito bem! Muito bem mesmo!
(e ai né?)Que seja, parabéns.
Boa… Realmente um conto digno de leitura.
Vô ler mais coisas suas aki. Me interessei.
realmente… conto digno de leitura…
Gostei. Vô dar mais uma passeada por aki.