“E em sabendo do perigo me apresto,
que em tal tarefa não basta livrar-se
o corpo – ou chorá-lo – ao seqüestro
A mim pareces-me um pássaro perdido.”*
Eram uma sequóia e um pássaro. Altiva e equilibrada, ela era sempre convicta de suas ideias e ideologias. A moça-sequóia, muito bem alicerçada e firme, não invejava a liberdade alheia: possuía uma liberdade peculiar: suas folhas e galhos dispunham de faculdade plena de movimentarem-se apenas de acordo com os caprichos da natureza, à deriva.
O rapaz-pássaro pairava no céu nublado, sob sua romântica condição de desprendido, solto. Era todo incerteza, mistério, voava só e assim o estimava; às vezes acompanhava a revoada, mas em geral consigo mesmo, e não raro tomava a nebulosidade do firmamento para dentro de si.
Um dia os ventos e sua causalidade fizeram com que eles se cruzassem:
_ Posso sentar do seu lado? – ela perguntou. Não ouviu a resposta – o solo insistente de um blues alto e a conversa frenética dos convivas do lugar pequeno e abafado na noite idem impediam-na de fazê-lo – mas sentou-se mesmo assim, imaginando um disposto “Mas é claro!”. Dividiram um cinzeiro improvisado e um assunto bobo, perfeito para primeiras vistas, então passaram a se encontrar mais vezes.
Ele era diferente de todas as pessoas com quem ela havia se relacionado anteriormente, e adorava isso. Achava muito divertido estar com alguém tão matizado e que lhe era ao mesmo tempo tão compatível. Cabe enriquecer com a observação da raridade desse tipo de ocasião: a moça era, por essência, perfeitamente descritível como alguém “independente emocionalmente e feliz com sua condição de solta”.
E assim mesmo o ar soprado os fez juntos cada vez mais e mais vezes, sob verdejantes veigas e bons terrenos – bares, eventos, reuniões, onde estavam sempre cercados de outras pessoas igualmente interessantes e agradáveis. E isso sucedeu por quase uma revolução do Planeta em volta do Sol, significativa a cada grau.
E foi-se indo o tempo, as estações, e uma nova temporada encetou-se. A moça-árvore, decídua, também tinha lá seus tempos de dificuldade; encontrava-se numa situação frágil feito linha de costura barata, com atribuições que exigiam uma responsabilidade, sabedoria e maturidade que ela descobrira não possuir suficientemente. O rapaz-passeriforme tinha lá sua vida, mas desejou ficar ao lado dela, mesmo nas adversidades.
Ele então assim o fez, acreditando no sentimento bom que possuía, mas não percebera que o mesmo era insuficiente, ainda que talvez não chegasse à mediocridade, para transpor certos embaraços.
Ocorre com muitas pessoas fatigarem-se de outras – não há normalidade maior: enjoamos da posição daquele quadro, do odor do amaciante de roupas e até do mais aprazível amigo, bem como de um beijo, de um toque, da textura de uma voz. Daí junta-se uma peça à outra última de um quebra-cabeças cuja hora de desfazer é chegada.
Todavia o desvanecimento não necessariamente faz com que a essência, o que há de mais sutil e puro nas coisas, perca-se. Pelo contrário: as boas lembranças permanecem incólumes – sãs e salvas.
Deu-se que o pássaro, então, foi-se afastando e ficando cada vez mais longe da jovem sequóia caduca, até quando resolveu-se por voar para o último horizonte, “num domingo qualquer, qualquer hora; ventania em qualquer direção”.
_ Não há mais nada que eu possa fazer, só dizer que sinto muito.
E alçou vôo, contando com o fortuito. Não tão fundo, ela já esperava.
Ora, tudo acaba: uma xícara de café expresso num final de tarde chuvoso, um banho de banheira, o último incenso de cravo da caixinha. E eis que esse fim “apoptósico” do casal rendeu à moça um banho frio e um prejuízo de dois maços de cigarros consumidos. Poderia ter sido mais, uma garrafa de qualquer coisa alcoólica, talvez, mas ela estava demasiado ocupada fazendo renascer suas folhas para a estação seguinte. Nada muito além de uma efêmera lamentação e uma lembrança grata do que lhe passou a ser ausente…
Quem sabe pudesse ter rendido um conto melhor… Quem sabe?
“A fonte se converteu nisso: simples
afeto, ponto de partida, ponto de
retorno, outra fronteira para
outro recíproco amor. Ainda que
ao despojar-me deste encanto seja
meu pranto o sol posto além deste reino.”*
*Ebe Guarino
